Adoração e Instrumentos
de Jim McGuiggan

Será notícia a muitas pessoas que qualquer um questionaria o uso de instrumentos em adoração já que é tão comum no Oeste. Mas eles provavelmente ficariam surpresos com quantas perguntas pessoas inteligentes e de bom coração debatem em assuntos de religião.

Para ser o mais breve e simples possível não seria realmente muito útil. Para desenvolver minhas razões por dizer que as Igrejas de Cristo deveriam deixar de usar o instrumento 1) precisaria de uma discussão prolongada, e, 2) não resolveria a pergunta ao gosto de todo o mundo. Por isso eu não estou bem seguro em como lidar com essa questão.

O que me parece claro é: Eu não conheço nenhuma passagem ou conjunto de passagens de Escritura que resolve o assunto. Eu desconheço modelo hermenêutica aceitável que resolve o assunto. Portanto em relação à exegese de textos eu não conheço nada que resolve o assunto sobre o certo ou errado de música instrumental em adoração.

Isto significa que, para eu me engajar ou não me engajar nessa questão terá quer ser baseado em outras considerações. Isto é onde entraria uma longa discussão que iria me satisfazer, mas não satisfaria muitos outros. A razão para o debate é a natureza de modelos de hermenêutica (“Como é que Deus autoriza coisas na Escritura?” é a pergunta principal nesta área específica de interpretação). Se havia versículos explícitos ou passagens que resolvessem o assunto nós não teríamos o debate. Se houvesse um modelo de interpretação indisputável que rendesse razoavelmente um ‘sim’ ou ‘não’ nós não estaríamos tendo o debate. Nenhuma destas opções está à nossa disposição. Pelo menos nenhum está disponível a mim.

Não há nada novo em debate bíblico. Tais debates têm acontecido durante séculos voltando até aos tempos antigos de Israel (quando Deus deu os juízes junto com textos, que em si mesmo deveria nos advertir contra o pensamento que há textos sobre tudo na Escritura que dispensa debate honesto). Se você lesse, por exemplo, os estudo de G.F. Moore “Judaísmo nos Primeiros Séculos da Era Cristã” ou de Emil Schurer “A História do Povo Judeu na Idade de Jesus Cristo” você encontraria seções sobre “halakah” que nos fala de como eles enfrentaram as mesmas dificuldades que nós enfrentamos sobre um grande número de assuntos. Na realidade você pensaria que estava lendo algumas de nossas discussões modernas quando você lesse como eles continuaram a trabalhar com perguntas eles que não puderam resolver com um texto explícito. A Bíblia (O Velho ou o Novo Testamento) não é nenhuma planta baixa exaustiva, por isso a maneira de honrar Deus em algumas áreas tem que ser “desenvolvido”. Sem prolongar mais o assunto eu penso que o instrumento é um dessas questões.

Pessoas de honra de ambos os lados da questão que buscam a honrar a Deus divergem no assunto porque (em minha visão) não há nenhuma palavra definitiva sobre a questão. É aqui onde entra “halakah” (você verá a palavra soletrada de várias formas). Estes estudiosos antigos não puderam encontrar um texto ou uma passagem que resolvesse o assunto em várias áreas, mas eles não queriam debater o assunto para sempre. Então eles examinaram a questão, chegaram a uma conclusão, que embora não era algo indiscutivelmente certo, seria algo dentro do qual eles poderiam conviver em cada comunidade ou aldeia ou área. Significava que eles poderiam deixar de discutir toda vez que se encontraram e que eles pudessem ter uma testemunha unida para Deus em outros assuntos que eram fundamentais e claros. O halakah em algumas regiões diferiria de em outras regiões. Quando um visitante viria para uma área nova ele perguntaria o que o halakah era neste ou naquele assunto e voluntariamente se submetiria a isso ao invés de trazer desconforto e conflito em relação a algo que tinha sido resolvido, mas, não por um texto explícito. Ele estava disposto a reconhecer que esta comunidade havia resolvido o assunto para sua satisfação e desfrutava da paz na unidade que era para honrar a Deus.

Nós desenvolvemos nosso halakah porque nós pensávamos/pensamos que este era o jeito e a direção que nós deveríamos seguir para agradar a Deus. Por isso nós praticamos adoração a cappella (ou seja, sem instrumentos). Eu acredito fervorosamente que nós devemos manter a paz que é mais importante na lista de prioridades de Deus que um acordo congregacional em um assunto que não é vital para a vida e que não pode ser resolvido definitivamente. (É claro então que isso significa que eu tenho como verdade que a questão de louvor com instrumentos não é vital para a vida e que não pode ser resolvido definitivamente.)

Agora isso levanta outras questões. Eu reconheço isso, mas até onde eu posso ver, só funciona assim. Já que é assim como eu vejo a situação (certo ou errado) eu sugeriria que nós ficássemos ricos em áreas que estão claros na Escritura e são obviamente de profunda importância – coisas que para nós como uma irmandade são simplesmente inegociáveis. Nós poderíamos então compartilhar a mensagem de salvação enquanto orando estudamos e refletimos como afinar nossa fé e agir em unidade bíblica sincera.

O que complica as coisas e traz tensão ao assunto é a maré de individualismo que está inundando todas as comunidades religiosas. Pessoas que crêem estão sendo tratadas cada vez mais como “consumidores” e (como David Buttrick os chamaria), pastores e líderes de igreja se tornaram “empresários eclesiásticos” que competem por almas na feira religiosa. Mas para os tratar como “consumidores” diz algo sobre nossa visão de Deus e muito sobre nós que é de arrepiar! Para grupos que não usam instrumentos isso traz desconforto para a convicção já estabelecida que o instrumento é inaceitável por motivos bíblicos. Muitas comunidades religiosas que não têm nenhuma objeção ao instrumento em adoração estão lamentando a demanda crescente para entretenimento. Some aquela mentalidade consumista às objeções bíblicas e históricas e o assunto é mais forte para aqueles de nós que são a cappella em prática.

Alguns leitores disto vão querer saber por que nós damos importância à questão, mas o debate nasce de preocupações sérias e um desejo genuíno de honrar a Deus. Aqueles que acreditam que adoração instrumental é inaceitável a Deus, às vezes são taxados de obtusos, pessoas tolas que não têm nada melhor para fazer com seu tempo do que discutir tolice. Isso é longe da verdade e só os ignorantes pode assumir tal visão. Pessoas não podem agir com integridade além das suas próprias percepções e a posição assumida que deveriam ser excluídos instrumentos de adoração é alimentada não só por pensamento bíblico e teológico mas por costume – de séculos antigos – que expressa uma preciosa unidade. Desprezar tudo aquilo só para que possamos aumentar o prazer da experiência de adoração de muitas pessoas ou desprezar tudo aquilo para que possamos conseguir mais visitantes em nossas reuniões é discutível no extremo. Introduzir o instrumento para que possamos fazer amizades com outros em outras irmandades enquanto alienamos pessoas dedicadas em nossa própria irmandade pode muito bem ser ganhando o “adicional” às custas do “indispensável”. Eu não negaria que usando instrumentos em adoração pode muito bem ser uma “liberdade” mas há algumas liberdades que deveriam ser felizmente evitadas por causa do amor (compare Êxodo 21:5, Romanos 14:1–15:14).

Eu sou um desses que pensam (certo ou errado) que o uso do instrumento em adoração não é um assunto de comunhão porque não é um assunto de salvação. (Isso faz parte do debate, não é?) Eu diria que Deus fez muito esforço para nos colocar dentro da igreja – que é o corpo de Cristo – e se alguém quiser nos excluir desse corpo (digamos, por usar um instrumento) eles precisam estar muito seguros no seu embasamento. Eu não penso que o uso do instrumento é tão sério quanto os motivos para o introduzir onde o costume estabelecido o excluiu por muito tempo e unidade é desfrutada. Eu acho muito difícil imaginar Deus no julgamento dizendo a alguém que “adorou com um instrumento” que ele tinha um assunto sério sobre o qual precisavam falar. Mas eu não tenho nenhuma dificuldade em imaginar Deus querendo falar com algum líder ou líderes sobre seus motivos por introduzirem algo que gerou desunião e perda.

Seja aquilo como for, sendo que nós buscamos a imagem de Deus em Jesus Cristo enquanto honramos a Escritura, nós temos que agir conforme entendemos a situação.

[Jim é marido de Ethel. Eles tem três filhos e oito netos. Eles moram em Irlanda do Norte onde ambos nasceram e foram criados. Jim é autor de diversos livros em inglês e serve como pregador numa igreja de Cristo perto da cidade de Belfast. Ele é um dos professores mais queridos de alguns do primeiros missionários americanos das igrejas de Cristo a virem para o Brasil.]

O artigo de Jim pode ser lido em inglês no site de Jim McGuiggan em "Worship and Instruments"

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